Onde estás, perguntou a rapariga. Lá fora qualquer coisa fez ondular as ervas do caminho, um sopro breve, uma gota ou duas de chuva fraca. Não me assustas, insistiu. Mas assustou-se. Largou com ruído a portada da janela, encolheu-se, escondeu-se debaixo da cama. Com o dedo indicador desenhou um bicho bom no pó que cobria o chão e um bicho mau de olhos grandes e avermelhados. Os dois lutaram entre si durante três dias e três noites, imaginou ela.

Depois o medo foi-se embora e ela também. 


 Where's my mommy de Aleksander Smid











Ela sabia. Ele andava por ali, a rondar as casas, a cheirar as esquinas, a marcar o território das almas sombrias. Não me metes medo, disse a rapariga. Tenho no bolso uma pedra afiada, sei uma cantilena para adormecer os ursos e as marmotas e o gelo quebra-se se eu soprar de mansinho num dia de chuva talvez. 
Ele não respondeu, invisível, surdo, indiferente. Falava a linguagem dos loucos em frente a uma parede branca e vazia. A rapariga calou-se, encostou a cabeça ao vidro e ouviu nitidamente as vozes das crianças perdidas a chamar.
 

Winter lullaby de Samanta










O pássaro voava por ali e o rapaz observava-lhe a alegria do canto, o prazer da chuva nas penas, a liberdade de ir e voltar. O rapaz era triste e pálido, o pássaro era colorido e determinado. O rapaz oferecia-lhe sementes e o pássaro pousava-lhe no ombro e segredava-lhe cantos de encantar. Empresta-me uma asa, pediu o rapaz, por dois ou três dias para eu navegar. E o pássaro emprestou.




 Wing sailing de Ben Goossens










Deus envergonhado, escondeu-se e chorou. A criança continuou a contemplá-lo como se ele existisse ainda e era manso o seu olhar e silenciosa a linha desenhada na sua boca e a interrogação marcada entre as suas sobrancelhas. 
Ao entardecer um vento quente quebrou o caule de uma flor amarela.


The Face de Ali Khataw










Vamos viajar, perguntou o peixe. O rapaz assobiou, o pássaro cantou. E porque era perigosa a travessia, o peixe ergueu-se bem alto no céu azul marinho e foram os três silenciosamente atentos a qualquer alteração das ondas, das praias e das marés.



High in the sky de Ben Goossens










Pode um pássaro construir a sua própria gaiola?


The visitor de Holger Droste










Tece-a de noite no canto superior direito da janela da cozinha. De manhã, entre a caneca de café e o embaciado do vidro, eu digo-lhe, vai-te embora, leva a teia para os ramos da laranjeira, para as folhas da roseira brava. Ela diz que não, não quer, gosta de estar ali no canto superior direito da janela da cozinha. Mas eu sei que ela esconde uma rapariga triste entre os fios de seda. E confundem-se as três, a teia, a aranha e a rapariga triste.



Misty blue de Samanta










Eram rígidas as regras, as filas, as esperas, as vésperas, as sombras das colunas e dos altares. 
E no entanto os pássaros voavam e os bolsos da bata sufocavam de tantas castanhas cruas. Roíamo-las a rir sempre que o sino da torre badalava um canto.



Collar de Anna Niemioc










Chegava outubro e eu com medo da escola. Os plátanos ladeavam o caminho da ida e acalmavam-me o caminho de volta. Dos pássaros, não me recordo.
Eu gostava dos contos, ela, das contas. Eu distraía-me com o vento lá fora. Ela concentrava-se a dissecar caracóis e minhocas.
A infância é um barco de papel a navegar sem âncora.


Sisters de Alicjia O'Sullivan













Era redondo o mês de agosto. Como a curva do horizonte, o lago dos peixes no parque, o ringue para jogar ao mata, mato eu, tu não. Era eterno também.
Só muito depois demos conta das raízes secas das videiras e da embriaguez patética dos homens à porta das tabernas ao entardecer.



… fotografia de Alicjia O’Sullivan










Não escrevo mais, disse a rapariga. Guardou a caneta, fechou o caderno quadriculado e arrumou-o na prateleira da estante. Os livros agitaram-se um pouco e sussurraram-lhe, vais arrepender-te. A rapariga gritou, calem-se, e pegando na máquina fotográfica foi registando o pó da sala e os círculos de luz e sombra na madeira dos móveis. Depois saiu para a rua e observou todas as coisas objectivamente.



M. de Svetlana Bekyarova











Once upon a time, a little, little bird, was singing in the sunshine and then came the cat and asked him, why are you so happy little, little bird singing in a branch of a big tree?
I’m a bird, said he.

Meow, replied the cat, and went away looking for a fish in the blue lake in that shiny, bright day. And the little, little bird, whistled to the day, the cat, the lake, the fish, the branch and the big tree. I'm a bird, said he.


fotografia The little bird with the long tail de Allan Wallberg












E a rapariga perguntou, emprestas-me a tua cauda para eu fazer um vestido rodado, plissado, que me faça voar. O peixe olhou-a, abriu a boca, soltou quatro bolhas de ar e escondeu-se atrás de uma rocha verde-esmeralda. A rapariga não desistiu e todos os dias encontrava-se com o peixe de cauda de flor e o peixe de tanto a ouvir deixou-se cativar. 
Uma tarde ela ganhou coragem e esquecendo o vestido rodado e plissado, mergulhou. São agora dois os peixes e uma rocha verde-esmeralda no fundo do mar.


The Flower of tail de Andi Halil










Falávamos então de outras coisas e eu gostava de te contar da tristeza das árvores no inverno, da neblina que habita os pinheirais e daquela seriedade mansa do meu vestido preto que me ficava tão bem.



Story of missing one de Svetlana Bekyarova










Às vezes pesa-me o inverno, o pinheiro, o burrinho, a vaca, o menino despido na lapa. A estrela é um pássaro fiel a voltear sobre a minha cabeça desatenta e ele, pássaro, a chamar-me pelo nome que eu não sei.


depression de Barbara



A rapariga habitava os livros que lia. Umas vezes descansava na página cento e três, outras vezes perdia-se nas entrelinhas.
Pelo meio, levantava a cabeça, ouvia as vozes lá fora, o jogo do avião, da apanhada. Ana-ina-anão, ficas tu, eu não. Porque regresso a casa. 


The girl with the book de Andi Halil











Levo-te comigo, disse o peixe. O farol protestou, que não, o meu lugar é aqui preso às rochas, à entrada dos estuários, nos promontórios, a iluminar as tempestades e os navios distraídos com as estrelas na noite escura. 
Será, respondeu o peixe-farol. E fez-se ao mar alto com a cabeça a andar à roda



The lighthouse de Ben Goossens










Quando o tempo aqueceu, o jardineiro construiu-nos um baloiço. Uma tábua pintada de verde, duas cordas suspensas nos ramos de um plátano. Não era carpinteiro o jardineiro, mas gostava de nós, dos ramos e dos plátanos. E dos gritos de alegria lançados para trás e dos pés descalços a tocar as nuvens e agora sou eu outra vez e mais uma, porque o baloiço é meu e ainda o conservo comigo na memória dos dias.


Fly de Samanta










Eu gostava quando os relógios se estragavam. Os de pulso, que eram aqueles que nos mediam os medos e a pulsação acelerava ou os sonhos, e eles, os relógios de sonho, paravam, perplexos, sem saber como continuar o tempo. E dávamos-lhes corda até quebrar. 
Depois íamos à ourivesaria Vilamar e o senhor Mendonça perguntava, então o que foi? não sabemos, respondíamos, porque apenas ele sabia. Era o deus das pequenas coisas o senhor Mendonça. Grande, era aquele olho que nos olhava quando ele levantava a cabeça do relógio partido e dizia feliz, vai dar muito trabalho mas tem arranjo.


sem nome IV, de Antonio Grambone







Anto

(do grego ánthos, flor)


Falta-me dizer-te quanto
num meio soneto em meu esperanto
por esta data te amo tanto
quanto cabe neste canto

Quanto te amo num pranto
ao te cobrir com meu manto
que mais não sei neste espanto


poema de Jaime Ferreira

fotografia de Paulo Nogueira