Ela sabia. Ele andava por ali, a rondar as casas, a cheirar as esquinas, a marcar o território das almas sombrias. Não me assustas, disse a rapariga. Tenho no bolso uma pedra afiada, sei uma cantilena para adormecer os ursos e as marmotas e o gelo quebra-se se eu soprar de mansinho num dia de chuva talvez. 
Ele não respondeu, invisível, surdo, indiferente. Falava a linguagem dos loucos em frente a uma parede branca e vazia. A rapariga calou-se, encostou a cabeça ao vidro e ouviu nitidamente as vozes das crianças perdidas a chamar.
 

Winter lullaby de Samanta










O pássaro voava por ali e o rapaz observava-lhe a alegria do canto, o prazer da chuva nas penas, a liberdade de ir e voltar. O rapaz era triste e pálido, o pássaro era colorido e determinado. O rapaz oferecia-lhe sementes e o pássaro pousava-lhe no ombro e segredava-lhe cantos de encantar. Empresta-me uma asa, pediu o rapaz, por dois ou três dias para eu navegar. E o pássaro emprestou.




 Wing sailing de Ben Goossens










Deus envergonhado, escondeu-se e chorou. A criança continuou a contemplá-lo como se ele existisse ainda e era manso o seu olhar e silenciosa a linha desenhada na sua boca e a interrogação marcada entre as suas sobrancelhas. 
Ao entardecer um vento quente quebrou o caule de uma flor amarela.


The Face de Ali Khataw










Vamos viajar, perguntou o peixe. O rapaz assobiou, o pássaro cantou. E porque era perigosa a travessia, o peixe ergueu-se bem alto no céu azul marinho e foram os três silenciosamente atentos a qualquer alteração das ondas, das praias e das marés.



High in the sky de Ben Goossens










Pode um pássaro construir a sua própria gaiola?


The visitor de Holger Droste










Tece-a de noite no canto superior direito da janela da cozinha. De manhã, entre a caneca de café e o embaciado do vidro, eu digo-lhe, vai-te embora, leva a teia para os ramos da laranjeira, para as folhas da roseira brava. Ela diz que não, não quer, gosta de estar ali no canto superior direito da janela da cozinha. Mas eu sei que ela esconde uma rapariga triste entre os fios de seda. E confundem-se as três, a teia, a aranha e a rapariga triste.



Misty blue de Samanta