Descíamos a rua, virávamos à esquerda e na casa das pedras morava o sr. Francisco. No vão da escada tinha a oficina e eu não sei se ele habitava a casa ou a oficina. Cheirava a cola e a couro e os sapatos velhos alinhavam-se nas prateleiras à espera das suas mãos para que os nossos pés calçados voltassem a mergulhar nas poças de água da chuva e a jogar ao avião. Mágicas eram as formas, as linhas, os martelos, as agulhas retorcidas, as caixas de graxa, os panos de feltro para fazer das botas espelhos.
Não sorria muito o sr. Francisco, mas perguntava, e lá em casa como estão? Era o sinal. Sentávamo-nos sobre um banco alto, ele entregava-nos um monte de atacadores para desembaraçar e falávamos de tudo, menos dos que lá em casa estavam. O sr. Francisco não sorria quase nada, mas sabia escutar. Quando nos calávamos, enrolava os sapatos em folhas de jornal e nós ficámos a par das notícias atrasadas. 



fotografia de Antonio Grambone











Na minha rua morava uma rapariga a quem chamavam estranha. Ela não respondia, por isso eu tinha a certeza que não era esse o nome da rapariga. Dava erros de ortografia e mandavam-na ao quadro de ardósia escrever cem vezes, acento e assento e a professora gritava-lhe, que medíocre és, mas eu tinha mais uma certeza, a de que medíocre ela não era, pois desenhava pássaros nos vidros da janela e eles voavam quando a campainha tocava e ninguém via os pássaros da rapariga, apenas eu, porque era a última a sair. Duas ou três vezes por ano obrigavam-nos a escrever, o que queres ser quando fores grande. Eu já era grande e assim pouco escrevia e a rapariga respondia, bailarina, ponto final. Ficávamos de castigo sem lanchar, naquela sala virada para os castanheiros da quinta e eu desenhava no quadro umas sapatilhas encarnadas, embora fossem preto-ardósia e branco-giz. A rapariga ria e um dia calçou-as e fugiu pela janela dos pássaros. A professora marcou-lhe falta até ao verão, ignorando que já não lhe faltava nada e a mim também não.


Ballerina de Pauline  Pentony













Um dia nasceu uma asa na haste de um amor-perfeito. Era estranha a asa e o amor perfeito. Sacudiram-lhe o pé, mudaram-lhe a terra, afogaram-lhe a asa de tanto regar e ele, estrangeiro, estranho, mas perfeito. Já seria primavera ou ainda não.



fotografia de Magnus Lindquist











O quebra-nozes murmura qualquer coisa à bailarina de cristal. Ela ri-se, a cortina da janela estremece e fogem os dois pelo buraco da fechadura.

Faz frio cá fora.
E o pinheiro arde, ao som de dois ou três passos de dança.



Last Christmas de Samanta













A casa assombrada ficava para lá do descampado, ervas daninhas, giesta um pouco, carqueja, talvez. A estrada cortada pelo caminho das cabras e a casa, que dizíamos assombrada e estou certa de que o era e ainda será. Dançava uma mulher na noite escura e o pátio da casa iluminava-se de muita lua e o assombro inundava-lhe o rosto e era tão belo e sempre será. Atiravam-lhe pedras aos vidros das janelas, os rapazes da rua, que jogavam ao berlinde e bulhavam no recreio da escola, mas nunca lhe tocaram num fio de cabelo, nem no gato que miava no jardim. E nós escrevíamos esta história numa folha de papel de cenário e ilustrávamos a tinta da China com um traço frio e fino como este mês.



Haunted house de Samanta












ninguém nos leva, morremo-nos
como as folhas no carreiro, como o gelo que se faz água

e a luz, a luz a teimar a madrugada


But the night is still young de Samanta