Levo-te comigo, disse o peixe. O farol protestou, que não, o meu lugar é aqui preso às rochas, à entrada dos estuários, nos promontórios, a iluminar as tempestades e os navios distraídos com as estrelas na noite escura. 
Será, respondeu o peixe-farol. E fez-se ao mar alto com a cabeça a andar à roda



The lighthouse de Ben Goossens










Quando o tempo aqueceu, o jardineiro construiu-nos um baloiço. Uma tábua pintada de verde, duas cordas suspensas nos ramos de um plátano. Não era carpinteiro o jardineiro, mas gostava de nós, dos ramos e dos plátanos. E dos gritos de alegria lançados para trás e dos pés descalços a tocar as nuvens e agora sou eu outra vez e mais uma, porque o baloiço é meu e ainda o conservo comigo na memória dos dias.


Fly de Samanta










Eu gostava quando os relógios se estragavam. Os de pulso, que eram aqueles que nos mediam os medos e a pulsação acelerava ou os sonhos, e eles, os relógios de sonho, paravam, perplexos, sem saber como continuar o tempo. E dávamos-lhes corda até quebrar. 
Depois íamos à ourivesaria Vilamar e o senhor Mendonça perguntava, então o que foi? não sabemos, respondíamos, porque apenas ele sabia. Era o deus das pequenas coisas o senhor Mendonça. Grande, era aquele olho que nos olhava quando ele levantava a cabeça do relógio partido e dizia feliz, vai dar muito trabalho mas tem arranjo.


sem nome IV, de Antonio Grambone







Anto

(do grego ánthos, flor)


Falta-me dizer-te quanto
num meio soneto em meu esperanto
por esta data te amo tanto
quanto cabe neste canto

Quanto te amo num pranto
ao te cobrir com meu manto
que mais não sei neste espanto


poema de Jaime Ferreira

fotografia de Paulo Nogueira











Um dia levo a casa.
Na cauda de um peixe, na barbatana dorsal, na peitoral, talvez.

As janelas e as portas abertas e o mar do lado de fora a ondular com as marés.



Atlantis de Ben Goossens










Conta, pai. E o pai contava. Era uma vez uma rapariga tão pequenina, tão redondinha, que lhe deram o nome de Maria Ervilha. Dormia numa caixa de fósforos forrada de lã, tomava banho numa concha do mar, brincava com as formigas e os grãos de areia da praia.
E o cão, pai? onde estava o cão que a guardava? E os pássaros, pai? bicavam na rapariga pequenina e redonda, pai? 
Não bicavam, gostavam dela. Um dia veio um pássaro castanho de asas azuis celeste e levou a Ervilhinha no bico escarlate e ela voou com o pássaro sobre as florestas e os rios, os castelos e as pontes, as cidades e os desertos e o pássaro disse-lhe, agora já sabes como a terra é redonda e bela como tu. A rapariga riu-se e a ave cantou.
E o cão pai?
Então o pai construiu-lhe um comboio de madeira com cinco carruagens e foram os dois mundo fora procurar um cão que gostasse de ervilhas também.
Estás a falar a sério pai? Estou.



Bedtime stories de Yvette Depaepe