Conta, pai. E o pai contava. Era uma vez uma rapariga tão pequenina, tão redondinha, que lhe deram o nome de Maria Ervilha. Dormia numa caixa de fósforos forrada de lã, tomava banho numa concha do mar, brincava com as formigas e os grãos de areia da praia.
E o cão, pai? onde estava o cão que a guardava? E os pássaros, pai? bicavam na rapariga pequenina e redonda, pai? 
Não bicavam, gostavam dela. Um dia veio um pássaro castanho de asas azuis celeste e levou a Ervilhinha no bico escarlate e ela voou com o pássaro sobre as florestas e os rios, os castelos e as pontes, as cidades e os desertos e o pássaro disse-lhe, agora já sabes como a terra é redonda e bela como tu. A rapariga riu-se e a ave cantou.
E o cão pai?
Então o pai construiu-lhe um comboio de madeira com cinco carruagens e foram os dois mundo fora procurar um cão que gostasse de ervilhas também.
Estás a falar a sério pai? Estou.



Bedtime stories de Yvette Depaepe











Qualquer coisa a arranhar a garganta, um espinho num dedo, um pico no pé. A cinza depois do medo, o grito do pássaro queimado, foi-se a luz dos meus olhos, disse ela. E foi a coisa mais triste e mais bela que eu ouvi e não sei se todos ouviram e o que é que isso lhes fez ao coração, mas o meu cobriu-se de vidros e depois de penas e muito depois, de claridade.



Silence must be heard de Samanta











Tomou-nos esta secura temporã a adiar a partida dos pássaros. As folhas velhas arrendam vestidos ainda de seda e não de lã e a lua cheia alumbra a madrugada.
Se vier a chuva fresca, que venha e encha os canteiros e os cântaros, se cântaros houver a musicar os telhados e as casas.




...II de Alicjia O' Sullivan










Em agosto crescem ao-deus-dará as plantas do jardim. E porque umas vezes deus dá e outras tira, morreu hoje um pássaro na estrada de asfalto. Desprotegido, deslocado, não era ali o ninho do pássaro.
Foi assim que outro pássaro tomou o seu lugar e a noite apenas escureceu um pouco mais.



Hairdo created by the garden de Alicja O' Sullivan 











Um dia deixamos-te ir, soltamos-te

da catedral, do nicho, do confessionário, do genuflexório, do murmúrio, da penumbra, do medo, do preconceito, da intolerância, da ira dos fariseus do púlpito


cegaremos então com a nossa própria luz



Shadow-chairs de Jacqueline van Bijnen











Descíamos a rua, virávamos à esquerda e na casa das pedras morava o sr. Francisco. No vão da escada tinha a oficina e eu não sei se ele habitava a casa ou a oficina. Cheirava a cola e a couro e os sapatos velhos alinhavam-se nas prateleiras à espera das suas mãos para que os nossos pés calçados voltassem a mergulhar nas poças de água da chuva e a jogar ao avião. Mágicas eram as formas, as linhas, os martelos, as agulhas retorcidas, as caixas de graxa, os panos de feltro para fazer das botas espelhos.
Não sorria muito o sr. Francisco, mas perguntava, e lá em casa como estão? Era o sinal. Sentávamo-nos sobre um banco alto, ele entregava-nos um monte de atacadores para desembaraçar e falávamos de tudo, menos dos que lá em casa estavam. O sr. Francisco não sorria quase nada, mas sabia escutar. Quando nos calávamos, enrolava os sapatos em folhas de jornal e nós ficámos a par das notícias atrasadas. 



fotografia de Antonio Grambone