Falávamos então de outras coisas e eu gostava de te contar da tristeza das árvores no inverno, da neblina que habita os pinheirais e daquela seriedade mansa do meu vestido preto que me ficava tão bem.



Story of missing one de Svetlana Bekyarova










Às vezes pesa-me o inverno, o pinheiro, o burrinho, a vaca, o menino despido na lapa. A estrela é um pássaro fiel a voltear sobre a minha cabeça desatenta e ele, pássaro, a chamar-me pelo nome que eu não sei.


depression de Barbara



A rapariga habitava os livros que lia. Umas vezes descansava na página cento e três, outras vezes perdia-se nas entrelinhas.
Pelo meio, levantava a cabeça, ouvia as vozes lá fora, o jogo do avião, da apanhada. Ana-ina-anão, ficas tu, eu não. Porque regresso a casa. 


The girl with the book de Andi Halil











Levo-te comigo, disse o peixe. O farol protestou, que não, o meu lugar é aqui preso às rochas, à entrada dos estuários, nos promontórios, a iluminar as tempestades e os navios distraídos com as estrelas na noite escura. 
Será, respondeu o peixe-farol. E fez-se ao mar alto com a cabeça a andar à roda



The lighthouse de Ben Goossens










Quando o tempo aqueceu, o jardineiro construiu-nos um baloiço. Uma tábua pintada de verde, duas cordas suspensas nos ramos de um plátano. Não era carpinteiro o jardineiro, mas gostava de nós, dos ramos e dos plátanos. E dos gritos de alegria lançados para trás e dos pés descalços a tocar as nuvens e agora sou eu outra vez e mais uma, porque o baloiço é meu e ainda o conservo comigo na memória dos dias.


Fly de Samanta










Eu gostava quando os relógios se estragavam. Os de pulso, que eram aqueles que nos mediam os medos e a pulsação acelerava ou os sonhos, e eles, os relógios de sonho, paravam, perplexos, sem saber como continuar o tempo. E dávamos-lhes corda até quebrar. 
Depois íamos à ourivesaria Vilamar e o senhor Mendonça perguntava, então o que foi? não sabemos, respondíamos, porque apenas ele sabia. Era o deus das pequenas coisas o senhor Mendonça. Grande, era aquele olho que nos olhava quando ele levantava a cabeça do relógio partido e dizia feliz, vai dar muito trabalho mas tem arranjo.


sem nome IV, de Antonio Grambone